Fungo e cupuaçu: dupla dinâmica contra a leishmaniose

Pomada com ácido kojico à base de triacilglicerídeos obtidos de sementes de cupuaçu pode ajudar no tratamento contra a doença.

 https://bio-orbis.blogspot.com/2015/02/fungo-e-cupuacu-dupla-dinamica-contra.html
Fungo Aspergillus flavus, à esquerda (Foto: Creative Commons) e cupuaçu, à direita (Foto: Liana John).

VAMOS DESCOBRIR...

Os fungos do gênero Aspergillus podem ser encontrados em qualquer lugar e se multiplicam com facilidade. Até demais, por sinal: quando se espalham sobre grãos de amendoim, soja ou castanha-do-Brasil produzem as famigeradas aflatoxinas, que se ligam ao DNA humano inibindo sua replicação e causando câncer. Os próprios fungos ainda podem causar aspergilose, uma doença das vias respiratórias, e diversos tipos de alergia.


Cupuaçu. Fonte da imagem: revistacasaejardim.

Mas quando cultivados em laboratório e submetidos a processos biotecnológicos devidamente controlados, esses fungos produzem ácido kojico, uma substância de interesse para a indústria de cosméticos e com bons resultados também contra o protozoário Leishmania amazonensis, causador de um tipo de leishmaniose cutânea. Os primeiros testes in vitro e in vivo para esta finalidade foram coordenados pela biomédica e doutora em Biofísica, Edilene Oliveira da Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém.


A LEISHMANIOSE

Os protozoários L. amazonensis são transmitidos pela picada de insetos flebotomíneos. Quando entram no organismo humano estão na fase ativa, chamada de promastigota: são alongados e possuem flagelo, uma espécie de cauda que os impulsiona pela corrente sanguínea até as células de defesa (macrófagos), no interior das quais se alojam. Aí começa a segunda fase do ciclo evolutivo, chamada amastigota: eles ficam ovais, o flagelo é internalizado e não se movimentam.

Fungo Aspergillus. Fonte da imagem: alunosonline.

“No caso específico de L. amazonensis há uma característica importante, que é a inibição da resposta imunológica. Os pacientes aqui da região amazônica desenvolvem um tipo de leishmaniose que não abre a úlcera: eles ficam cheios de nódulos na pele e no interior desses nódulos está cheio de parasitas. Sem um remédio, eles ficam com a Leishmania para o resto da vida”, explica Edilene. Quando ocupa as células hospedeiras, o parasita “desliga” o mecanismo de resposta imunológica para se instalar.

Fruto cupuaçu. Fonte da imagem: dicassobresaude.

Mas o ácido kojico tem efeito imunomodulador e reverte esse processo, reativando as células, o que permite que o corpo se defenda. A substância também tem ação contra a forma intracelular do parasita e provocou redução de 92,1% no número de amastigotas, após 4 semanas de tratamento, com ligeira redução também das lesões.

“Com base nestes resultados, sugerimos o uso do ácido kojico em pomada para passar sobre os nódulos ou ulcerações. E já registramos duas patentes internacionais e uma nacional”, conta a pesquisadora. Mas ainda há muitos testes para fazer antes de desenvolver a pomada. O próximo passo é realizar os ensaios com primatas, para depois então chegar aos testes clínicos e ao desenvolvimento de um produto farmacêutico.


A POMADA MILAGROSA

Para testar a eficiência do ácido kojico em roedores, a equipe da UFPA produziu pomadas com vários veículos, incluindo uma à base de triacilglicerídeos obtidos de sementes de cupuaçu (Theobroma grandiflorum).

Surpreendentemente, a pomada acelerou o processo de cicatrização. “Foi um acaso, usamos o cupuaçu por causa dos lipídios, para facilitar a permeabilidade da pele, mas descobrimos que pode ajudar, pois causou aumento impressionante de colágeno, que é importante na cicatrização. Se isso se confirmar em novos testes, pode diminuir o período de tratamento”, comemora Edilene Oliveira.

Fungo Aspergillus, desenho esquemático (cores fantasia)Fonte da imagem: wattagnet.

A equipe da UFPA envolvida nesta pesquisa conta com 3 pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas e 2 da Química, mais um doutorando e um mestrando. Os ensaios foram feitos em colaboração com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Estrutural e Bioimagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro (INBEB/UFRJ) e o Laboratório de Microscopia Eletrônica do Instituto Evandro Chagas, de Belém. Os recursos vieram da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), do INBEB e da UFPA.

Agora é torcer para que as patentes não fiquem na gaveta e transformem logo as boas notícias científicas em opção de tratamento para as vítimas de leishmaniose da região amazônica. Existem 7 tipos de leishmaniose na Amazônia brasileira e a pomada de Aspergillus com cupuaçu – se aprovada nos testes – servirá para aliviar o problema de apenas um dos tipos. Mas já é uma excelente notícia para quem hoje só tem tratamentos quimioterápicos, caros, invasivos e lotados de efeitos colaterais.


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3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Parabéns aos pesquisadores que se empenham na busca de soluções para as populações amazônicas, muitas vezes esquecidas, mas atingidas em sua qualidade de vida, quando parasitadas pela leishmania.
    A pesquisa avançada em microbiologia, biologia molecular e farmacologia fitoterápica abre novas oportunidades de diagnóstico, tratamento, minorando iatrogenias.
    Paz e bem!

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    1. Olá Shalom,

      Incrível pesquisa dos cientistas não é mesmo? Verdade mesmo o que você disse, as populações amazônicas são esquecidas, e olha que a cada mês se não me engano se descobre uma espécie nova na imensidão da Amazônia. A resposta para muitas curas podem estar escondidas dentro do nosso outro verde.

      Agradecemos pelo comentário, um grande abraço.

      Equipe BioOrbis.

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