A ameaça das espécies exóticas

A introdução de espécies é algo que já vem de muitos anos atrás. Mas uma espécie exótica é a pior e mais ameaçadora de todas.

 https://bio-orbis.blogspot.com/2017/10/a-ameaca-das-especies-exoticas.html

VAMOS DESCOBRIR...


INTRODUÇÃO DE ESPÉCIES

A natureza quando em equilíbrio, impõe resistência às populações, de forma que há um controle das densidades populacionais. Dentre os fatores de controle pode-se mencionar competição, predação, parasitismo, restrição de alimento e diminuição de território para reprodução.

Quando introduzimos em um ambiente uma espécie de outro ecossistema ou bioma, essa resistência da natureza pode acabar não ocorrendo, seja por não haver predadores dessa espécie no novo ambiente ou por haver grande oferta de território para reprodução, de alimento farto ou de outros fatores. Isso faz com que a espécie introduzida aumente sua população e provoque desequilíbrios ecológicos.

COMEÇOU A MUITO TEMPO ATRÁS...

O jovem explorador e naturalista Charles Darwin em suas duas últimas semanas de viagem, em julho de 1836, teve uma breve visão do que se encontrava adiante. O Beagle (navio com o qual fez sua maior jornada) ancorou em Santa Helena, na metade do caminho entre a África e a América do Sul. A ilha, a princípio ocupada pelos portugueses no século XVI, está entre os lugares mais isolados do mundo. Darwin estava muito feliz com isso: 100 quilômetros quadrados de montanha vulcânica emergiram “do oceano como um grande castelo negro”. Ele admirou o “caráter inglês, ou melhor galês, também tinha um ar britânico, com tojos, amoreiras silvestres, salgueiros e outras espécies importadas, complementadas por uma variedade de espécies da Austrália. Mais de setecentas plantas foram descritas - mas nove em cada dez eram invasoras

Tojos (Ulex). Fonte da imagem: Wikipédia.

Elas haviam levado os habitantes originais à extinção ou a refúgios no alto das montanhas. Uma região de pastos pobres perto da consta era conhecida pelos locais como “Great Wood” (Grande Bosque) – que é o que havia sido até cem anos antes, quando as árvores foram derrubadas e os rebanhos de bodes e de porcos consumiram suas mudas e mataram a floresta

Salgueiro. Fonte da imagem: Ogham.

As pragas de ratos e gatos vieram e se foram, uma vez que estes se devoraram mutuamente até a extinção. Em seu primeiro dia em terra, ele encontrou conchas mortas de nove espécies de “conchas terrestres de uma forma bastante peculiar” e (num indício precoce da evolução) notou que os indivíduos de uma certa espécie “diferem como uma variedade marcante” de outros da mesma espécie colhidos a alguns quilômetros de distância. Todos aqueles moluscos, com a exceção de um, haviam sido eliminados e substituídos pelo caracol-comum-de-jardim da Inglaterra.

Caracol-comum-de-jardim. Fonte da imagem: News.

Quase dois séculos depois de sua visita, a vida em Santa Helena é pior. A ilha um dia teve 49 espécies únicas de angiospermas e 13 de samambaias. Sete foram levadas à destruição desde a chegada dos portugueses, duas sobrevivem em cultivos e muitas estão em seu limite. 

O petrel de Santa Helena (Pterodroma rupinarum). Fonte da imagem: LeesBird.

A última oliveira de Santa Helena morreu de bolor em 1994. A lacraia gigante (a maior do mundo, com 8 centímetros), o besouro gigante e a libélula de Santa Helena, todos comuns nos anos 1830, não são vistos há anos, e o caracol de forma peculiar identificado por Darwin está hoje reduzido a uma população de não mais de algumas centenas. O petrel de Santa Helena (Pterodroma rupinarum) está extinto, e uma ave endêmica solitária, o borrelho-de-santa-helena (Charadrius sanctaehelenae) ainda sobrevive, mas também está sob ameaça.

O borrelho-de-santa-helena (Charadrius sanctaehelenae). Fonte da imagem: HotspotBirding.

E A DEVASTAÇÃO CONTINUA...

A evolução gera a diferença. Apenas uma espécie reverteu o processo. O homem instituiu uma simplificação quase tão grande quanto aquela trazida pela catástrofe que destruiu os dinossauros. As próprias Galápagos são um severo lembrete do que ele fez em menos de dois séculos. O HMS Beagle visitou a ilha de James em 1835. A comida era abundante: “Alimentávamos exclusivamente de carne de tartaruga (...) as tartarugas jovens dão uma sopa excelente”. Nesses seres deselegantes, Darwin observou, sem se dar conta disso, o primeiro indício de evolução, pois os animais daquela ilha eram distintos daqueles em Indefatigable e Albemarle, ali perto. Numa rara união de taxonomia e gastronomia, ele observou que os espécimes de James eram “mais redondos, mais escuros e mais saborosos quando cozinhados” – o que, na época, pareceu pouco mais do que uma curiosidade, mas era, de fato, uma introdução à biologia da mutação.

Tartarugas da ilha de James. Fonte da imagem: Publico.

Hoje as tartarugas da ilha de James e suas companheiras foram praticamente levadas à extinção. De 250 mil nos dias do Beagle, seu número caiu para 15 mil. Os porcos, tanto quanto os homens, fizeram o trabalho, pois adoram se alimentar de ovos de tartaruga. Pragas menos óbvias também prosperaram no arquipélago. O pulgão-branco-dos-citros o invadiu a vinte anos. Atingiu todo o arquipélago e ataca inúmeras espécies de plantas nativas.

Pulgão-branco-dos-citros. Fonte da imagem: PlantasEJardins.

Nas Galápagos, os bodes e os gatos são uma praga, os pombos expulsaram seus parentes emplumados, e vespas invasoras causaram danos terríveis aos insetos. As ilhas enfrentam uma era na qual os especialistas, desenvolvidos para ocupar seus pequeno lugar na natureza, caíram diante de estranhos grosseiros, capazes de se dar bem mais ou menos em qualquer lugar. Os produtos dos milhões de anos de isolamento foram destruídos pelo homem, o predador mais generalizado de todos.

O destino da lacraia gigante de Santa Helena ou das tartarugas das Galápagos é bastante triste, mas os objetos de estudo menos espetaculares de Charles Darwin fornecem uma declaração mais mordaz do ataque universal à biosfera. Eles são, a um só tempo, ameaçados e uma ameaça a outros lugares. Os seres primitivos que ele estudou – as minhocas e as abelhas, as prímulas e as orquídeas, as plantas trepadeiras e aquelas que se fecham sobre sua presa – todos enfrentam um terremoto ecológico, onde quer que vivam. De muitas formas, as lições a serem aprendidas de tais seres humildes são mais alarmantes do que aquelas dos habitantes espetaculares das distantes ilhas do Pacífico. A crise avançou muito além do exótico, e o que um dia foi comum ou até mesmo lugar-comum, tornou-se raro.

Nas planícies de Yorkshire, a sapatinhos-de-Vênus, foi por um tempo reduzida a uma única planta. Milhares de espécimes de estufa foram atualmente semeadas na esperança de que a espécie possa ser resgatada.

Sapatinhos-de-Vênus. Fonte da imagem: HortaàPorta.

Um platelminto da Nova Zelândia introduzido em Belfast nos anos de 1960 está fora de controle, e um primo australiano começou a se mudar pra lá. A espécie mata minhocas, enrolando-se ao seu redor e digerindo-as vivas. A praga se espalhou pela Escócia, pelo Norte da Inglaterra e pela Irlanda e, em alguns outros lugares, a população de minhocas foi destruída.

Darwin notou a invasão das plantas britânicas nos Estados Unidos e perguntou a seu colega norte-americano Asa Grey: “Não fere seu orgulho ianque o fato de nós os agredirmos de modo tão abominável?” O Novo Mundo logo deu o troco, com esquilos cinzas que comem os ovos de pássaros das florestas e com elódeas-comuns que obstruem os rios. O terceiro milênio é a era das ervas daninhas, e a espécie mais daninha de todas, o Homo sapiens, é a culpada.

Esquilos cinza. Fonte da imagem: WebKarioca.

A tasneira de Oxford (Senecio squalidus), venenosa e de cor amarelo-brilhante, comum em solos perturbados na Inglaterra, é um híbrido entre duas espécies sicilianas trazidas ao Jardim Botânico de Oxford no século XVII, que escapou e continua a se espalhar.

Tasneira de Oxford Senecio squalidus. Fonte da imagem: NatureSpot.

Algumas das invasoras mais agressivas são trepadeiras. Elas são pragas globais. Até mesmo o lúpulo se tornou um transtorno, com uma variedade japonesa que se espalhou pelos Estados Unidos. O kudzu, uma ervilha trepadeira, também é originário do Japão. Num gesto de amizade, foi transplantado ao jardim ornamental do país na Exposição da Filadélfia de 1876. Os jardineiros gostaram de suas flores, e as espécie se espalhou por todo o território nacional. As tentativas de controlá-lo custam 500 milhões de dólares por ano.

A trepadeira Kudzu. Fonte da imagem: WoderPolis.

Na Austrália, a amoreira silvestre é uma praga, assim como a Ipomoea cairica, uma campainha introduzida a partir dos trópicos do Velho Mundo. A maior parte é inofensiva em casa, mas um estilo de vida que depende de uma explosão de crescimento ao encontrar um espaço aberto repentino na floresta é letal quando exportado para um lugar não adaptado a suas artimanhas.

Ipomoea cairica. Fonte da imagem: AustralianTropicalRainforestPlants.

Os polinizadores estão em crise e, em ambos os lados do Atlântico, as abelhas estão em declínio. O número de colônias silvestres de abelhas europeias em partes da América do Norte é um décimo, e daquelas em colmeias um terço, do que era há 50 anos. Os inseticidas, os parasitas, as doenças virais e a competição das abelhas africanas introduzidas causaram uma crise, assim como a perda de fileiras de cerca viva e outros lugares cobertos de arbustos que eram um lar para insetos benéficos. Apesar das tentativas de manter as abelhas felizes com flores silvestres plantadas ao redor de orquídeas e controlando o uso de inseticidas, o declínio continua. Numa guinada da história, a poluição mata a fragrância de muitas flores e, assim, reduz a chance de que um polinizador encontre seu alvo. Essa é uma notícia ruim para os amantes de mel, pior para os agricultores, e pode ser catastrófica para muitas plantas nativas.

Abelhas africanas. Fonte da imagem: BlogMacaubense.

Os problemas das abelhas, a proliferação das ervas daninhas e a destruição do solo assentado pelos vermes são apenas uma parte de uma nova crise global da agricultura. Em todo mundo, os viveiros de peixes forma exauridos e – num gesto insensato de preocupação ecológica – parte de sua melhor terra é usada para plantar biocombustíveis.

UM FIM IMINENTE

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas tem por volta de 16 mil nomes inscritos em suas páginas e, todos os anos, uma nova espécie espetacular, ou várias, é declarada extinta.

A extinção faz parte da evolução. Cerca de 500 mil espécies de pássaros existira, desde que o grupo se desenvolveu há mais de 100 milhões de anos, mas não muito mais de 10 mil existiram ao mesmo tempo, e esse é o número hoje (mas doze centenas deles estão ameaçadas). Ainda assim, ninguém pode negar que vivemos numa época de mudanças rápidas, em que, enquanto algumas espécies prosperam, muitas outras são destruídas.

Os chimpanzés, por mais ameaçados que estejam hoje, são três vezes mais diversos no nível molecular, cada um do seguinte, do que os humanos. Mesmo nos últimos 70 mil anos o Homo sapiens passou por um gargalo de apenas 2 ou 3 mil indivíduos durante uma longa era de seca. Houve inúmeras crises locais desde então, conforme o homem ocupou novos continentes e chegou a ilhas remotas. Durante grande parte da história, fomos um primata ameaçado enquanto nossos parentes se expandiam. Hoje, ocorre o inverso.

O Homo sapiens, assim como a trepadeira kudzu, a minhoca e a craca gigante, começou a se deslocar e a se multiplicar. Como resultado, seu próprio futuro, e aquele de todos os outros habitantes do planeta, foi transformado. Talvez não tenhamos percebido, mas a evolução humana está no meio de uma mudança tão grande quanto aquela das espécies que nos cercam. Há muito tempo, temos sido o primata mais daninho de todos e, nos últimos cinco anos, tornamo-nos ainda mais daninhos do que antes. A história sempre foi feita na cama, mas as camas estão mais próximas do que estiveram um dia.

Craca gigante. Fonte da imagem: GovernodosAçores.

Nessa grande fusão global, o Homo sapiens evoluiu da mesma forma que outros seres daninhos. De outras maneiras, o homem é único: pois ele é o único animal que escapou, ou quase, do alcance das leias impiedosas de vida e morte da evolução. A seleção natural há muito age sobre nossa própria espécie, ainda que nossa engenhosidade tenha mitigado seu poder, com muito menos respostas em nossa própria linhagem do que na do chimpanzé. Hoje, no país em que a ideia foi inventada, e, cada vez mais, no mundo inteiro, o processo se desacelerou e possivelmente logo pare.

Conforme o próprio Charles Darwin insistiu, a evolução não é uma ciência profética. A seleção natural não tem uma tendência intrínseca a aperfeiçoar matérias (ou, no caso, torna-los piores). Ao Homo sapiens, algumas surpresas desagradáveis sem dúvida aguardam. Algum dia, a evolução se vingará e nós possivelmente cairemos na batalha pela existência contra nós mesmos, o maior desafio ecológico de todos os tempos.


Fonte: JONES, Steve. A ilha de Darwin, 2009.

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