quinta-feira, 29 de março de 2018

Por que classificar os seres vivos?

Já pensou se cada farmacêutico decidisse dar nome para cada medicamento existente em sua farmácia? E se cada um disputasse os remédios nas prateleiras segundo a sua própria conveniência? Manda o bom senso que os nome dos medicamentos sejam os mesmos dentro de cada país e que a disposição deles nas prateleiras das farmácias siga uma norma aceita por todos, facilitando, assim, a sua localização.

 http://www.bioorbis.org/2018/03/porque-classificar-os-seres-vivos.html
Seres vivos. Fonte da imagem: BiologiaNet.

VAMOS DESCOBRIR...

Seja por ordem alfabética, pela finalidade do medicamento (analgésicos, antialérgicos, antidiarreicos etc.), ou ainda, por um associação dos dois critérios, a vantagem da classificação é evidente: qualquer pessoa pode localizar o medicamento quando a ordenação deles na farmácia é feita segundo critérios universalmente aceitos.

Entre a infinidade de seres vivos existentes no planeta, há o mesmo problema. A diversidade biológica (Figura 3) é enorme. Foi por isso preciso ordená-los, agrupando-os em grupos facilmente manipuláveis e que pudessem ser utilizados por qualquer pessoa que se dedicasse ao seu estudo ou pesquisa. Surgiram, então, os sistemas de classificação que procuravam ordená-los segundo critérios de fácil compreensão e utilização. Assim, cientistas do mundo inteiro passaram a trabalhar com espécimes cuja posição era a mesma nos sistemas de classificação empregados. Para dar apenas um exemplo: o nome científico do cão doméstico é Canis familiaris (Figura 2), que pertence à família dos canídeos e à ordem dos carnívoros

Figura 2. Espécimes de Canis familiaris. Fonte da imagem: Thinglink.

Ele é conhecido dessa forma por qualquer cientista, seja sueco, um russo ou brasileiro. Quer dizer, todos se utilizam do mesmo critério para ordenar os seres vivos na classificação biológica. Essa atitude facilitou a comunicação entre biólogos de diferentes localidades, uma vez que o método proposto para ordenar os seres vivos tem sido universalmente aceito.

Figura 3. Diversidade biológica. Fonte da imagem: EuqueroBiológia.

A IDEIA DOS REINOS PARA AGRUPAR OS SERES VIVOS

Por um longo tempo, os biólogos consideraram a existência de apenas dois grandes reinos de seres vivos: o reino Animal e o reino Vegetal. Para a maioria dos seres, essa maneira de classifica-los não era problemática. Ninguém teria dúvida em considerar o sapo como animal e a samambaia como vegetal. Os critérios então utilizados para essa divisão eram simples: os animais andam e são heterótrofos (ou seja, são incapazes de produzir seu alimento orgânico, devendo obtê-lo pronto de outra fontes). Os vegetais (Figura 4) são imóveis e autótrofos (ou seja, capazes de produzir seu alimento orgânico a partir de substâncias simples do meio, com a utilização da luz do Sol, em um processo conhecido como fotossíntese).

Figura 4. Fonte da imagem: StuffPoint.

Mas, a partir do momento em que surgiram os primeiros microscópios começaram a ser descobertos outros seres difíceis de classificar. Um deles foi a euglena (Figura 5), um microrganismo que, em presença da luz, atua como autótrofo, sendo capaz de realizar fotossíntese. Quando colocada no escuro, no entanto, ela é capaz de se alimentar, como qualquer heterótrofo. Além disso, possui um flagelo que permite a sua locomoção, funcionando como animal! Outro caso paradoxal é o dos Fungos (cogumelos, bolores, orelhas-de-pau). São fixos, parecendo-se, assim, vegetais. São, porém, incapazes de fazer fotossíntese, por serem aclorofilados (aclorofila é um pigmento fundamental na realização da fotossíntese). Alimentam-se de restos orgânicos. Os fungos são heterótrofos. Assim como as euglenas e os fungos, há outros casos de seres vivos que não se enquadram nem no reino animal, nem no reino vegetal.

Figura 5. Euglena. Fonte da imagem: Go-Lab.

Tendo em vista a existência desses problemas, os cientistas decidiram criar o reino Protista (Figura 6). Nele, enquadram as bactérias, os protozoários, os fungos (Figura 7) e as algas, ou seja, seres que não se encaixavam na ideia de animal ou vegetal. A partir do século XIX, portanto, passou-se a falar da existência de três reinos: Animal, Vegetal e Protista.

Figura 6. Protista. Fonte da imagem: Wikipédia.

Com o progresso da Ciência e a descoberta do microscópio eletrônico, foi possível visualizar melhor a célula, componente praticamente universal dos seres vivos da Terra atualmente. Verificou-se, assim, que as bactérias e as cianobactérias, que até então eram consideradas protistas, possuíam células desprovidas de núcleo organizado. O material genético ficava disperso no interior da célula. Criou-se o termo célula procariótica para designar essa organização celular primitiva.

Figura 7. Fungos. Fonte da imagem: SlidePlayer.

Já nas células dos demais seres vivos (Figura 8), percebeu-se a existência de um núcleo perfeitamente delimitado por uma membrana, a chamada carioteca. Esse tipo celular passou a ser chamado de célula eucariótica e existe em todos os demais seres vivos celulares da Terra atualmente.

Figura 8. Diferenças entre a célula procariótica e célula eucariótica (clique na imagem para ampliar). Fonte da imagem: SlidePlayer.

A partir dessa descoberta, fez-se mais uma nova distribuição dos seres vivos. As bactérias e todos os demais seres que possuem célula procariótica passaram a compor um novo reino: o Monera (Figura 9).

Figura 9. Monera. Fonte da imagem: Biodiversidad.

Como podemos perceber, as descobertas ampliam os conhecimentos biológicos e modificam comportamentos. A classificação atualmente proposta para os seres vivos considera-os como componentes de cinco grandes reinos, conforme mostra a imagem abaixo (clique na imagem para ampliar):

Figura 10. Fonte da imagem: SlidePlayer.

VÍRUS: ESSES SERES EXTRAORDINÁRIOS

A descoberta dos vírus (Figura 11) revelou que são seres extremamente pequenos e acelulares. Diferem de todos os demais seres atualmente existentes na Terra. Seu corpo é formado por material genético envolvido por proteína.

Figura 11. Vírus. Fonte da imagem: InfoEscola.

Então em que reino vamos enquadrá-los? Uma solução possível é formar com eles um novo reino: o reino Vírus. Outra solução, conveniente em termos didáticos, é considera-los como um grupo à parte, não enquadrado em nenhum dos reinos existentes.

As regras de nomenclatura não são aplicadas aos vírus por serem organismos extremamente peculiares. Os nomes a eles atribuídos referem-se, em geral às doenças por eles provocados. Exemplos: vírus da AIDS (cientificamente conhecido como HIV), vírus da poliomielite, vírus bacteriófago (comedor de bactérias), vírus Ebola etc.

A NOMENCLATURA BIOLÓGICA

Os reinos dos seres vivos são formados por uma infinidade de representantes, cada qual pertencente a “tipos” que apresentam algumas características comuns. Cada tipo corresponde a uma espécie biológica, que pode ser conceituada como um conjunto formado por organismos capazes de se intercruzar livremente na natureza, produzindo descendentes férteis. As espécies são consideradas as unidades básicas da classificação biológica, do mesmo modo que os tipos de medicamentos o são numa farmácia. Aí surge outro problema. Como nomear as diferentes espécies de seres vivos atualmente existentes? Qual o nome científico usado por um cientista australiano, um russo ou um brasileiro, por exemplo, para se referirem ao lobo? Houve épocas em que os nomes dados aos seres da mesma espécies eram longos, confusos e refletiam as preferências pessoais de pesquisadores que trabalhavam em diferentes locais da Terra. Era preciso uniformizar os nomes dados e, assim, facilitar a comunicação entre os cientistas de diversas localidades, que trabalhavam com a mesma espécie.

Também se verificou que seres pertencentes a espécies diferentes apresentam características comuns como, por exemplo, o cão doméstico, o coiote e o lobo. Assim, podemos agrupar as espécies aparentadas em categorias maiores, a que os biólogos chamaram de gênero.

LINEU E O SISTEMA BIONOMINAL

No século XVII, Carlos Lineu (Figura 12), um botânico sueco, propôs um sistema de nomenclatura dos seres vivos que, embora tenha sofrido algumas modificações, tem sido utilizado até hoje. Esse sistema, conhecido como sistema binominal, tem como base o conceito de espécie e utiliza a ideia de gênero. 

Figura 12. Carlos Lineu. Fonte da imagem: Wikipédia.

Foi preciso escolher uma língua que fosse de conhecimento universal e que não sofresse modificações. O latim, por ser uma língua morta, isenta de qualquer modificação, foi eleito. O mérito do trabalho de Lineu foi uniformizar a nomenclatura biológica e utilizá-la universalmente, em uma época em que os meios de comunicação não eram a maravilha que são hoje. Assim, cada espécie passou a ter um nome formado por duas palavras, de modo semelhante ao que acontece com a maioria das pessoas:

- A primeira palavra, iniciada por letra maiúscula, indica o gênero e o corresponde a um substantivo escolhido pelo autor que cria o nome; gênero pode ser abreviado;

- A segunda palavra corresponde à espécie e é um adjetivo. Em geral, o autor designa um lugar, uma personalidade ou uma característica marcante do ser vivo que ele estuda;

- É preciso destacar o nome científico no texto. Isso é feito grifando as duas palavras, ou escrevendo-as em itálico ou negrito;

- O autor que foi o primeiro a descrever e publicar conhecimentos da espécie, tem o direito de nomeá-la. Ou seja, não pode haver dois nomes para a mesma espécie. Ás vezes, há mudanças que devem ser promovidas por consenso entre os cientistas, em congressos.

Muitas vezes, o nome da espécie é escrito seguido do nome do autor da descoberta. Exemplo: o nome científico da planta popularmente conhecida como dormideira ou sensitiva é Mimosa pudica L. (de Lineu) (Figura 13).

Figura 13. Mimosa pudica. Fonte da imagem: Wikipédia.

O nome corresponde à espécie pode ser iniciado com letra maiúscula quando é dado em homenagem a alguma personalidade ilustre. 

Figura 14. Osvaldo Cruz. Fonte da imagem: BlogSaúdeMG.

É o caso do agente causador da doença de Chagas, o protozoário Trypanosoma cruzi (Figura 15), nome dado pelo descobridor da espécie, Carlos Chagas, em homenagem ao ilustre sanitarista Osvaldo Cruz (Figura 14).

Figura 15. Trypanosoma cruzi. Fonte da imagem: ISGlobal.

Quando uma espécie é constituída de algumas variedades, elas são designadas como subespécies e, nesse caso, acrescentamos um terceiro nome após o nome da espécie. Exemplo: Crotalus durissus cascavella e Crotalus durissus terrificus são duas subespécies de cobras cascavéis (Figura 16).

Figura 16. Crotalus durissus cascavella. Fonte da imagem: flickr.

OUTRAS CATEGORAIS DE CLASSIFICAÇÃO

Os biólogos que se preocupam em ordenar a coleção de seres vivos trabalham num ramo da Biologia conhecido como Taxonomia. Esse trabalho consiste em reconhecer espécies semelhantes e agrupá-las em gêneros. Do mesmo modo, os gêneros podem ser reunidos, se tiverem algumas características comuns, formando uma família. Famílias, por sua vez, podem ser agrupadas em uma ordem. Ordens podem ser reunidas em uma classe. Classes de seres vivos são reunidas em filos. E os filos são, finalmente, componentes de algum dos cinco reinos que descrevemos anteriormente. Todas essas categorias de classificação (espécie, gênero, família, ordem, classe, filo e reino) são conhecidas como categorias taxonômicas. A imagem abaixo ilustra a classificação completa de alguns animais pertencentes à ordem dos carnívoros, entre eles o cão, o gato, o lobo, a pantera e o urso (clique na imagem para ampliar):

Figura 17. Fonte da imagem: SlidePlayer.

UM EXEMPLO PRÁTICO DE CLASSIFICAÇÃO: OS UTENSÍLIOS DOMÉSTICOS

Em nossas casas, utilizamos uma infinidade de utensílios que são guardados em lugares apropriados. Na cozinha, reservamos uma gaveta de talheres (Figura 18) para guardar os objetos que chamamos de garfos, colheres, facas etc. Cada um desses utensílios constitui um gênero. Por outro lado, há diversas espécies de garfos, colheres e facas. Por exemplo, podemos separar as colheres de café, as de sopa, as de sobremesa etc. Cada tipo de colher constitui uma espécie. Garfos, colheres e facas podem ser reunidos na família talheres. 

Figura 18. Talheres. Fonte da imagem: GuiadosSolteiros.

Por sua vez, a família dos pratos também inclui diversos gêneros, compostos de várias espécies. O mesmo acontece com a família que inclui os guardanapos e toalhas de mesa. Todas essas famílias reunidas formam a ordem dos utensílios da cozinha. Essa ordem, reunida às outras ordens contidas na cozinha (mesa, aparelhos elétrico etc.), acaba formando a classe dos objetos utilizados na cozinha. A cozinha toda, com todos os demais componentes a ela peculiares, constitui um filo que, reunido a todas as demais dependências da casa (quartos, salas, banheiros, etc.), leva à formação do reino, que é a casa toda.

Referência: UZUNIAN, Armênio; BIRNER, Ernesto. Biologia 2. Editora Harbra. 2ª edição. 1º Lugar na Categoria Didático de Ensino Fundamental e Médio. Prêmio Jabuti 2002.

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