O primeiro documento sobre a História Natural do Brasil

Considerada por muitos como o primeiro documento sobre a História Natural da América Portuguesa, a carta de José da Anchieta, escrita em São Vicente, dirigida a seu superior Padre Diego Laynes, em Roma.

 http://www.bioorbis.org/2018/04/o-primeiro-documento-sobre-historia.html
Esta imagem acima é do tratado do naturalista Carl von Martius ao Brasil. Fonte da imagem: FioCruz.

VAMOS DESCOBRIR...


Tendo chegado à Bahia em julho de 1553, o jesuíta espanhol José da Anchieta (Figura 1) foi logo transferido para o planalto de Piratininga onde, por determinação de seu superior Padre Manoel da Nóbrega, ficaria encarregado da correspondência epistolar da Companhia de Jesus, cabendo-lhe ainda ministras aulas de gramática e ser responsável pelas edificações.

Figura 1. Padre Anchieta. Fonte da imagem: Sesc.

A carta datada de 31 de maio de 1560, nela, a visão apurada de Anchieta aborda, nas 901 linhas do texto latino original, aspectos do clima, da flora, da fauna, da região, aí incluídos os animais peçonhentos.

Abaixo ressaltam-se alguns trechos do documento:

CLIMA

[...] Todavia, em Piratininga, que fica no interior das terras, a 30 milhas do mar, e é ornada de campos espaçosos e abertos, e em outros lugares que se lhe seguem para o ocidente, a natureza procede de tal maneira que, se os dias se tornam extremamente cálidos por causa do calor abrasador (cuja maior força é de novembro a Março), a vinda da chuva lhes vem trazer refrigério: cousa que aqui acontece agora. Para explicar isso em breves palavras: no inverno e no verão há grandes chuveiros, que servem para temperar os ardores do sol, de sorte que ou precedem de manhã ao estio, ou vêm á tarde. Na primavera, que principia em Setembro, e no estio, que começa a vigorar em Dezembro, as chuvas caem abundantemente, com grande tormenta de trovões e relâmpagos.

Então, há não só enchentes de rios, como grandes inundações dos campos; nessas ocasiões, uma imensa multidão de peixes, que saem da água para pôr ovas, deixam-se apanhar sem muito trabalho entre as ervas, e compensam por algum tempo o dano causado pela fome que trouxera a subversão dos rios. Assim, este tempo é esperado com avidez, como alívio da passada carestia: a isto chamam os índios piracema, isto é, “a saída dos peixes”; por quanto, duas vezes cada ano, quase sempre em Setembro e Dezembro e algumas vezes mais frequentemente, deixam os rios e se metem pelas ervas em pouca água para desovar; mas no estio, como é maior a inundação dos campos, saem em mais consideráveis cardumes e são apanhados em pequenas redes e até mesmo com as mãos, sem apresto algum.

Finalmente, os grandes calores do verão são moderados pela muita abundancia de chuvas; no inverno, porém (passado o outono que, começando em Março, acaba numa temperatura agradável), cessam as chuvas; a força do frio torna-se horrível, sendo maior em Junho, Julho e Agosto; nesse tempo vimos muitas vezes não só as geadas espalhadas pelos campos a queimarem arvores e ervas, como também a superfície da água toda coberta de gelo.  Então esvaziam-se os rios e baixam até o fundo, de sorte que se acostuma apanhar à mão, entre as ervas, grande porção de peixes.

FAUNA

[...] Ha um certo peixe, a que chamamos boi marinho, os índios o denominam iguaragua, frequente na Capitania do Espirito Santo e em outras localidades para o norte, onde o frio ou não é tão rigoroso, ou é algum tanto diminuto e menos que entre nós; é este peixe de um tamanho imenso; alimenta-se de ervas como o indicam as gramas mastigadas presas nas rochas banhadas por mangues. Excede ao boi na corpulência; é coberto de uma pele dura, assemelhando-se na cor á do elefante; tem junto aos peitos uns como dois braços, com que nada, e embaixo deles tetas com que, aleita os próprios filhos; tem a boca inteiramente semelhante à do boi. É excelente para comer-se, não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe: da sua gordura, que está inerente a pele e mormente em torno da cauda, levada ao fogo faz-se um molho, que pode bem comparar-se a manteiga, e não sei se a excederá; o seu óleo serve para temperar todas as comidas: a todo o seu corpo é cheio de ossos sólidos e duríssimos, tais que podem fazer as vezes de marfim.

Peixe-boi. Fonte da imagem: PatachoRecepitivo.

[...] Em certa quadra do ano apanha-se uma infinita quantidade de peixes; a isso os índios chamam pirá-iquê, isto é, “entrada dos peixes”; porquanto vem inúmeros deles de diversas partes do mar, entram para os lugares estreitos e de pouco fundo do mar, afim de porem as ovas.

[...] Encontram-se no interior das terras cobras a que os índios denominam sucuryúba, de maravilhoso tamanho: vivem quase sempre nos rios, onde apanham para comer os animais terrestres, que a miúdo os atravessam a nado; saem porém ás vezes para a terra e os acometem nos atalhos, em que costumam correr daqui para ali. Não é fácil acreditar-se na extraordinária corpulência destas cobras; engolem um veado inteiro e até animais maiores; isto tem sido observado por todos; alguns dos nossos irmãos o viram com espanto, e até um deles vendo uma serpente a nadar no rio, pensou que era um mastro de navio. Dizem que não têm dentes e só se enroscam nos animais, matam-nos introduzindo lhes a cauda pelo anus, e triturando-os com a boca os devoram inteiros.  A este respeito contarei cousas estupendas e não sei se serão criveis; mas, tanto os índios, como os Portugueses que passaram muitos anos de sua vida nesta parte do globo, uno ore as afirmam. Estas cobras engolem, como disse, certos animais grandes, que os índios chamam tapiiara, de que tratarei ao diante; como porém o seu estomago não os pode digerir, caem por terra como mortas, sem poderem mover-se, até que apodreça o ventre juntamente com a comida: então, as aves de rapina raspam-lhes a barriga e a devoram toda com o seu conteúdo; depois a cobra, disforme, meio devorada, começa a reformar-se, crescem-lhe as carnes, estendesse-lhe por cima a pele, e volta á antiga forma.

Sucuri. Fonte da imagem: NewSrondonia.

Ha igualmente lagartos que vivem do mesmo modo em rios, e a que chamam jacaré. São estes animais de excessiva corpulência, de modo que podem engolir um homem; cobertos de escamas duríssimas e armados de agudíssimos dentes; passam a vida na água; ás vezes sobem até as ribanceiras, onde acontece serem mortos enquanto dormem, não todavia sem bastante custo e perigo, como sucede com o elefante. As suas carnes, que são boas de comer-se, cheiram a almíscar, máxima nos testículos, que é onde está a maior força do cheiro.

Jacaré-do-pantanal. Fonte da imagem: Wikipédia.

Ha também outros animais do gênero anfíbio, chamados capiyûára, isto é, “que pastam ervas”, pouco diferentes dos porcos, de cor um tanto ruiva, com dentes como os da lebre, exceto os molares, dos quais alguns estão fixos nas mandíbulas e outros no meio do céu da boca; não têm cauda; comem ervas, donde lhes provém o nome; são próprios para se comer; domesticam-se e criam-se em casa como os cães: saem para pastar e voltam para casa por si mesmos.

Anfíbios. Fonte da imagem: CulturaMix.

Ha muitas lontras, que vivem nos rios; das suas peles cujos pelos são muito macios, fazem-se cintos. Ha também outros animais quase do mesmo gênero, designados no entanto por nome diverso entre os índios e que têm idêntico uso. Ha pouco tempo tendo um índio atravessado com a flecha a um deles e saltando na água para apanhá-lo, apareceu uma multidão de outros que estavam debaixo d’água, acometeram-no com unhas e dentes, de tal maneira, que trazendo com dificuldade o que havia morto, saiu quase em pedaços, e passaram-se muitos dias primeiro que lhe sarassem as feridas. Estes animais são quase pretos, pouco maiores que os gatos, munidos de dentes e unhas agudíssimas.

Ariranha. Fonte da imagem: Pinterest.

[...] Algumas, chamadas jararacas, abundam nos campos, nas matas e até mesmo nas casas, onde muitas vezes as encontramos: a sua mordedura mata no espaço de vinte e quatro horas, posto que se lhe possa aplicar remédio e evitar algumas vezes a morte. Isto acontece com certeza entre os índios: se forem mordidos uma só vez e escapam à morte, mordidos daí por diante, não só não correm risco de vida, como sentem até menos dor, o que tivemos mais de uma vez ocasião de observar.

Jararaca. Fonte da imagem: G1.

A outra variedade denominam bóicininga, que quer dizer, “cobra que tine”, porque tem na cauda uma espécie de chocalho, com o qual soa quando assalta alguém. Vivem nos campos, em buracos que subterrâneos; quando estão ocupadas na procriação atacam a gente; andam pela grama em saltos de tal modo apressados, que os índios dizem que elas voam; uma só vez que mordam, não há mais remédio: paralisam-se a vista, o ouvido, o andar e todas as ações do corpo, ficando somente a dor e o sentimento do veneno espalhados pelo corpo todo, até que no fim de vinte e quatro horas se expira.

Cascavel. Fonte da imagem: SociedadedosAnimais.

[...] Ha também outras admiravelmente pintadas de várias cores, de preto, de branco, de encarnado semelhante ao coral, as quais os índios apelidam ibîbobóca, isto é, “terra cavada”, porque elas no rojarem fendem a terra à maneira de toupeiras; estas são as mais venenosas de todas, porém mais raras.

Cobra coral. Fonte da imagem: DomEscobar.

Ha também outras, que são denominadas pelos índios bóiguatiára, isto é, “cobras pintadas”, por causa das suas diversas variedades de pintura; estas são igualmente mortíferas. [...]

[...] O que direi das aranhas, cuja multidão não tem conta? Umas são um pouco ruivas, outras cor de terra, outras pintadas, todas cabeludas; julgarias que são caranguejos, que é o tamanho do seu corpo: são horríveis de ver-se, de maneira que só a sua vista parece trazer diante de si veneno. Um certo animalejo do gênero dos vespões, inimigo destas, persegue-as encarniçadamente, mata-as com o ferrão, leva-as para pequenos buracos que cava para si, e aí as come.

Aranha caranguejeira. Fonte da imagem: PixaBay.

Ha outro bichinho quase semelhante à centopeia, todo coberto de pelos, feio de ver-se, de que há vários gêneros, diferem entre si na cor e no nome, tendo todos da mesma forma. Se alguns deles tocarem no corpo de alguém, causam uma grande dor que dura muitas horas; os pelos de outros (que são compridos e pretos, de cabeça vermelha) são venenosos, e provocam desejos libidinosos. Os índios costumam aplicá-los ás partes genitais que assim incitam para o prazer sensual; incham elas de tal modo que em três dias apodrecem, donde vem que muitas vezes o prepúcio se fura em diversos lugares, e algumas vezes o mesmo membro viril contrai uma corrupção incurável: não só se tornam eles feios pelo aspecto horrível da doença, como também mancham e infeccionam as mulheres com quem têm relações [...]

[...] Ha também outro animal de feio aspeto, a que os índios chamam tamanduá. Avantaja-se no tamanho ao maior cão, mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão; é, por isso, vagaroso, podendo ser vencido pelo homem na carreira. As suas cerdas, que são negras entremeadas de cinzento, são mais rijas e compridas que as do porco, máxime na cauda, que é provida de cerdas compridas, umas dispostas de cima a baixo, outras transversalmente, com as quais não só recebe, como rechaça os golpes das armas; é coberto de uma pele tão dura que é difícil de se atravessar pelas flechas; a do ventre é mais mole. Tem o pescoço comprido e fino; cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo; boca redonda, tendo a medida de um ou, quando muito, dois anéis; a língua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, sem contar a que fica para dentro (que eu medi), a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem de todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca, e esta é a sua refeição ordinária: admira como tamanho animal com tão pouca comida se alimente. As patas dianteiras são robustíssimas, de grande grossura, quase iguais a coxa de um homem, as quais são armadas de unhas muito duras, uma das quais principalmente excede em comprimento ás de todas as demais feras; não faz mal a ninguém, senão em sua defesa própria: quando acontece ser atacado pelos outros animais senta-se e, com as patas dianteiras levantadas, espera o ataque, de um só golpe penetra-lhes as entranhas e mata-os. E saborosíssimo; dirias que é carne de vaca, sendo todavia mais mole e macia [...]

Tamanduá. Fonte da imagem: Pixdaus.

Ha outro animal, bastante frequente, próprio para se comer, chamado pelos índios tapiíra e pelos espanhóis "anta"; julgo que é o que em latim se chama "alce” [...]

FLORA

Das ervas e árvores não quero deixar de dizer isto, que as raízes a que chamam mandioca, de que nos utilizamos como alimento são venenosas e nocivas por natureza, se não forem preparadas pela indústria humana para se comerem; comidas cruas matam a gente, assadas ou cozidas comem-se; todavia, os porcos e os bois as comem cruas impunemente; se porém beberem o suco que delas se exprime, incham de repente e morrem.

Mandioca. Fonte da imagem: Hortas.info.

Ha outras raízes chamadas yeticopê, semelhantes ao rabão, de agradável sabor, muito apropriadas para acalmar a tosse e molificar o peito. A sua semente, que se assemelha a favas, é um violentíssimo veneno. [...]

[...] Ha uma certa árvore, de cuja casca cortada com faca, ou do galho quebrado, corre um líquido branco como leite, porém mais denso, o qual, se beber em pequena porção, relaxa o ventre e limpa o estomago por violentos vômitos: por pouco, porém que exceda na dose, mata. Deve-se, enfim, tomar dele tanto quanto caiba em uma unha e isso mesmo diluído em muita água; se não se fizer assim, incomoda extraordinariamente, queima a garganta e mata.

Seringueira. Fonte da imagem: PensamentoVerde.

Ha também outra, chamada vulgarmente marareçó; as suas folhas parecem as do bordo, a raiz pequena e redonda, que se come assada ou bebe-se esmoída com agua, exposta por uma noite ao sereno.

[...] Na povoação que se chama Espirito Santo é muito comum uma certa árvore muito alta, cujo fruto é admirável. Este é semelhante a uma panela, cuja tampa, como que trabalhada a torno, com que está pendente da árvores, se abre por si mesma quando está maduro: aparecem então dentro muitos frutos semelhantes a castanhas, separadas por delgadas tiras como interposto septos, muitíssimo agradáveis ao paladar. O vaso ou urna, em que estão encerrados, não é menos duro que a pedra, e pode-se facilmente julgar do seu tamanho pelas castanhas que contém, que passam de cinquenta. [...]

Sapucaia. Fonte da imagem: ArgosFotos.

José de Anchieta nunca mais retornaria à Europa, faleceu em Reritiba, Espírito Santo, em 9 de julho de 1597, aos 63 anos de idade, 44 dos quais vividos no Brasil.

Referências
CARDOSO, et al. Animais Peçonhentos no Brasil. Biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. Editora Sarvier. 2009.
Anchieta J. Carta de São Vicente. Reserva da biosfera da Mata Atlântica. 1997.

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