O que espreita abaixo

O mundo no subsolo é um lugar desconhecido, mais desconhecido do que o mar. Embora saibamos menos sobre o fundo do oceano do que sobre a superfície da Lua, nossas informações sobre a vida debaixo da terra são ainda mais escassas.

 http://www.bioorbis.org/2018/03/o-que-espreita-abaixo.html
Uma descida rumo a mundo desconhecido. Fonte da imagem: LiveJournal.

VAMOS DESCOBRIR...

Já foram descobertas muitas espécies e fatos que originaram bastante material, mas não passa de uma fração mínima em relação à diversidade debaixo dos nossos pés.

UM PEQUENO PEDAÇO DE TERRA

Em um punhado de terra (Figura 3) de uma velha floresta existem mais seres vivos do que o total de seres humanos no planeta. Um colher de chá contém mais de 1 quilômetro de filamentos de fungos (Figura 6). Todos esses seres trabalham e transformam o solo, tornando-o valioso para as árvores.

Figura 2. Escavando. Fonte da imagem: 123RF.

Tempos atrás, quando a vida surgiu na forma de bactérias, fungos (Figura 5) e plantas, elas quando morriam se transformavam em húmus (Figura 3). 

Figura 3. Húmus. Fonte da imagem: OurWorld.

No decorrer dos milênios, as árvores colonizaram esse solo, que só agora pode ser chamado assim, e o tornaram cada vez mais rico. Suas raízes fixaram o solo e o protegeram de chuvas e tempestades, evitando a erosão, um dos maiores inimigos da floresta. 


Figura 4. Linhito. Fonte da imagem: WikipediaCommons.

Com isso, as camadas de húmus continuaram crescendo e formaram os precursores do linhito (carvão fóssil rico em detritos vegetais, Figura 4).


ESPÉCIES DIFERENTES, MAS IMPORTANTES

A maioria das espécies que vivem nos solos não são visíveis a olho nu e nem agradáveis de ver em um microscópio. Ácaros (Figura 6), colêmbolos e poliquetas (Figura 9) não são tão simpáticos quanto orangotangos ou jubartes

Figura 5. Cogumelo. Fonte da imagem: Pixabay.

Na floresta, esses seres ínfimos e estranhos formam a base da cadeia alimentar e podem ser considerados o plâncton terrestre. Infelizmente cientistas não se interessam muito por esses seres microscópicos, por isso sabemos muito pouco sobre eles. Mas talvez isso seja um pouco reconfortante: ainda há muitos segredos por descobrir nas florestas próximas da sua casa. Vamos ver agora alguns dos poucos seres vivos que já foram revelados.

Figura 6. Ácaros. Fonte da imagem: GreenMe.

Já foram descobertos mais de mil espécies de oribatídeos (Figura 7), família de ácaros que medem menos de 1 milímetro e parecem aranhas bejes e marrons com pernas curtas, por isso se disfarçam bem no solo, seu habitat natural. Basta você ler a palavra ácaro para fazermos a associações com os ácaros domésticos, que se alimentam de escamas de pele e outros dejetos e provocam alergias em algumas pessoas. E a verdade é que pelo menos parte desses ácaros produz um efeito semelhante nas árvores. As folhas e os pedaços de casca caídos formariam pilhas de alguns metros de altura se um exército de criaturas milimétricas e famintas que vivem na folhagem caída no solo não os devorasse com avidez.

Figura 7. Oribatídeos. Fonte da imagem: ECycle.

Outras espécies de ácaros se especializaram em fungos. Movimentam-se pelos filamentos finos e brancos dos fungos. Em último caso, alimentam-se do açúcar das árvores, os quais também compartilham com fungos parceiros. Seja madeira em decomposição ou caracóis mortos, não há nada que não sirva de alimento para pelo menos uma espécie de ácaro, criatura imprescindível para o ecossistema, pois vive na interseção entre o nascimento e a morte.

Figura 8. Gorgulho. Fonte da imagem: Pixabay.

Há também o caso do gorgulho (Figura 8), um besouro que lembra um elefante minúsculo sem as orelhas. Os gorgulhos estão entre as famílias de insetos com mais espécies em todo o mundo (só na Europa, são cerca de 1.400). O gorgulho não usa as plantas para absorver nutrientes, mas para proteger a prole. Com a ajuda de seu longo chifre, abre pequenos buracos nas folhas e nos talos, nos quais bota seus ovos. Protegidas de predadores, as larvas podem abrir pequenos dutos nas plantas e crescer com segurança.

Figura 9. Poliquetas. Fonte da imagem: Invertevoice.

Algumas espécies de gorgulho, em sua maioria habitantes do solo, perderam a capacidade de voar, pois se acostumaram ao ritmo lendo das árvores e à sua existência quase eterna. Ao longo de um ano inteiro se locomovem no máximo 10 metros, e não é necessário mais que isso. Quando a árvore morre e o ambiente se transforma a seu redor, o gorgulho só precisa se mudar para a árvore ao lado, onde continuará se alimentando da folhagem em deterioração. Quando encontramos esses insetos em uma floresta, já sabemos que ela é antiga e tem um histórico ininterrupto. Se a floresta foi desmatada na Idade Média e replantada depois, não encontraremos essa espécie de besouro, pois o caminho até a floresta mais próxima seria longo demais para eles.


ANIMAIS EXÓTICOS MAS COM ALGO EM COMUM

Todos esses incríveis animais têm algo em comum: são muito pequenos, por isso têm um raio de ação extremamente limitado. Em florestas grandes e ancestrais que no passado cobriam a Europa Central, isso não tinha importância, mas hoje grande parte das florestas foi alterada pelo homem. Abetos em vez de faias, douglásias no lugar de carvalhos, árvores jovens substituindo antigas: as novas florestas não agradam ao paladar dos animais, que morrem de fome.

Figura 10. Colêmbolos. Fonte da imagem: ElGabinete.

Existe a esperança de que um dia possamos nos maravilhar com verdadeiras florestas ancestrais, ao menos nos parques nacionais. Pesquisas realizadas por universitários em uma reserva na Alemanha, apontam que animais microscópios ligados a florestas de coníferas conseguem percorrer distâncias surpreendentemente grandes. A prova são as antigas matas de abetos onde foram encontradas espécies de colêmbolos (Figura 10) que se especializaram nesta conífera. Mas como esses pequenos besouros especializados em coníferas chegaram a reserva? 

Figura 11. Folsomia candida. Fonte da imagem: Enfo.

A hipótese seria de que talvez tenham sido transportados por pássaros, que os carregaram em suas penas. Como os pássaros gostam de rolar nas folhagens para limpar a plumagem, certamente alguns colêmbolos se penduraram nas penas e foram depositados na outra floresta. Se isso funcionou com os animais especializados em abetos, possivelmente funcionará com espécies especializadas em árvores frondosas.


AINDA A MUITO O QUE DESCOBRIR...

Contudo mostrado, vemos que temos uma imensa lacuna no conhecimento do que espreita abaixo do solo. Temos que incentivar nossa curiosidade para prestar mais atenção não só nos animais incríveis como os elefantes, tigres, ursos, etc., mas também aqueles que não vemos, que estão abaixo de nossos pés, que no qual podem carregar informações e características que levarão a curas de doenças, novas tecnologias e um conhecimento vasto e incrível de como funciona os ecossistemas a nossa volta.

Figura 12. Fonte da imagem: LiveJournal.

Referência
WOHLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores. Editora Sextante. 2017.

Antes de terminar veja um vídeo do canal MicropolitanMuseum, sobre Bioturbação com e sem fauna do solo:



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2 comentários:

  1. Uilmara Machado de Melo Gonçalves12 de maio de 2018 09:18

    Demais!!!! De fato, um MISTÉRIO!!!! E não precisei ir tão fundo, assim, para descobrir e revelar para Papai (que nunca tinha ouvido ou visto isto): encontrei "filhotes" de lagartas em minhas amadas Amaryllis. fui tirá-las e tive uma ingrata surpresa, pois elas estavam debaixo da terra, também, DENTRO dos bulbos das Amaryllis e destruíram-nas por completo; resultado: perdi 8 (oito) Amaryllis!...

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    1. Olá Uilmara,

      Realmente é um mundo misterioso abaixo de nossos pés. E que história interessante a sua sobre as Amaryllis. Mas que triste você ter perdido todas as suas Amaryllis.

      Um grande abraço, e até a próxima.

      Equipe BioOrbis.

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