O Eucalipto: herói ou vilão?

Quando se ouve falar em Eucalipto, a maioria das pessoas, bem informadas ou leigas logo remetem a um pensamento negativo.

 http://www.bioorbis.org/2018/06/eucalipto-impacto-ambiente.html
O Eucalipto. PixaBay/Domínio Publico.

VAMOS DESCOBRIR...

Espécies exóticas invasoras, são organismos considerados que, introduzidos fora de sua área de distribuição natural, ameaçam ecossistemas, habitats ou outras espécies, sendo consideradas a segunda maior causa de redução de biodiversidade do planeta, só perdendo para a destruição de habitats (UICN, 2000).

O EUCALIPTO


O eucalipto que do grego, eu + καλύπτω = “verdadeira cobertura” ou “bem coberto” é uma designação vulgar para várias espécies vegetais do gênero Eucalyptus, pertencente à família das Mirtáceas, que possuem outros 130 gêneros (VITAL, 2007).

Os Eucaliptos são naturalmente originários da Austrália, existindo apenas pequenas quantidades de espécies próprias dos países vizinhos como a Nova Guiné e Indonésia, e uma espécie ao sul das Filipinas. Por ser nativo desses países, o eucalipto tem uma grande resistência por causa do clima de sua origem (HASSE, 2006).

O eucalipto é uma espécie muito utilizada para o reflorestamento no mundo todo, segundo Vital (2007), o Brasil possui cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, aproximadamente 63,7% são compostos por florestas nativas, 23,2% são ocupados por pastagens, 6,8% pela agricultura, 4,8% pelas redes de infraestrutura e áreas urbanas, 0,9% por culturas permanentes e apenas 0,6% abrigam florestas plantadas.

eucaliptos
PixaBay/Domínio Publico.

Atualmente, as plantações de eucalipto estão presentes nas mais diversas regiões do mundo, localizadas em diferentes altitudes, diferentes tipos de solo, sob diferentes regimes pluviométricos (VITAL, 2007). De modo geral são criticadas em vários estudos sobre os seus efeitos no solo, tais como empobrecimento e erosão, efeitos nas águas, tais como impactos sobre a umidade do solo, os aquíferos e lençóis freáticos, bem como efeitos sobre a baixa biodiversidade tendo em vista as monoculturas.


De acordo com Vital (2007), os impactos ambientais das florestas de eucalipto dependem das condições prévias ao plantio, tais como, o bioma onde será plantada, a densidade pluviométrica da região, os tipos de solo, a declividade dos solos e a distância das bacias hidrográficas. E também das técnicas agrícolas empregadas, tais como a densidade do plantio, métodos de colheita, presença ou não de corredores biológicos e atividades associadas.

BREVE HISTÓRICO DO EUCALIPTO NO BRASIL


Não se sabe ao certo a data em que o eucalipto foi inserido no Brasil. O artigo “Eucaliptos para o Brasil”, de Armando Navarro Sampaio, citado no artigo de Viana (2004), informa que os primeiros eucaliptos plantados foram na região do Rio Grande do Sul, por volta de 1868, por Frederico de Albuquerque, e no mesmo ano o Primeiro-Tenente da Marinha, Pereira da Cunha, também plantou alguns exemplares na região da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

Pelo final do século XIX e início do século XX, o eucalipto era plantado apenas como uma árvore de decoração, como quebra-ventos, pelo seu rápido desenvolvimento e crescimento ou possivelmente também pela suas supostas propriedades sanitárias.

IMPACTOS AMBIENTAIS DO EUCALIPTO


No Brasil, se adota a definição oficial, explicitada pelo artigo 1°, da Resolução N° 1 do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, de 23 de janeiro de 1986, a qual instituiu a Avaliação de Impactos Ambientais no Brasil.


Segundo esse dispositivo legal, impacto ambiental é: “Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam:

I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população;
II - as atividades sociais e econômicas;
III - a biota;
IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;
V - e a qualidade dos recursos ambientais.”

Água


Em relação ao seu consumo de água tem críticas direcionadas que se referem ao fato do se consumo excessivo de água e seus possíveis impactos sobre a umidade do solo, os rios e lençóis freáticos (VITAL, 2007).

Segundo Vital (2007), “basicamente, o eucalipto necessita captar CO² e O² do ar, para realizar, respectivamente, duas importantes atividades metabólicas: a fotossíntese e a respiração, sendo que a fotossíntese necessita, ainda, da água retirada do solo.”

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Floresta de eucaliptos. Pixabay/Domínio Público.

No estudo de Davidson (1993), observa-se que em regiões onde o volume pluviométrico é inferior a 400 mm/ano, as plantações de eucalipto podem levar ao ressecamento do solo, mas os volumes forem maiores as possibilidades de ressecamento são mínimas. Em regiões onde o solo prévio à plantação já estava degradado ou possuía baixos níveis de fertilidade, as plantações de eucalipto podem elevar a quantidade de húmus na terra, melhorando as condições de fertilidade do solo. Para Vital (2007), pondera-se que no processo de crescimento, a floresta utiliza, além da água e dos nutrientes, energia solar e dióxido de carbono, para a fotossíntese, e utiliza oxigênio, devolvendo água e gás carbônico, na sua respiração. Visto isso, impactos relacionados a atmosfera, de florestas de eucalipto pode ser um impacto somente positivo e bastante benéfico se visado seu plantio em escala.

“De modo geral, as plantações brasileiras de eucalipto situam-se em áreas de volume pluviométrico acima de 1.000 mm/ano” (VITAL, 2007). Dessa forma, mesmo com grande volume de água consumido pelas plantações, não é esperado que ocorra déficit hídrico nestas regiões.

Solo


De acordo com Palmberg (2002), “a remoção de nutrientes do solo em plantações de eucalipto depende: das técnicas de manejo das plantações; e dos métodos de colheita. O consumo de nutrientes por árvores de eucalipto não é maior do que o consumo de outras culturas agrícolas.” O impacto ambiental das florestas plantadas sobre o solo também depende do bioma em que está inserida, ou seja, das condições do solo prévias à implantação das plantações (VITAL, 2007). Bouvet (1999), por exemplo, retrata que, “quando plantado em áreas degradadas ou de savana, é possível observar substancial elevação da quantidade de húmus na terra.” Davidson (1985) afirma ainda que, em termos gerais, os eucaliptos consomem menos nutrientes por quantidade de madeira produzida do que outras culturas agrícolas, sendo, portanto, eficientes também no consumo de nutrientes.

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Folhas secas no chão de uma floresta formando a serrapilheira. Pixabay/Domínio Público.

A maioria das formas de eucalipto não é adequada para o controle da erosão, sobretudo por gerar insuficientes resíduos orgânicos (folhas e galhos) para cobrir o solo e por interceptar pouca água da chuva (VITAL, 2007). Por outro lado, por gerar barreiras contra o vento, o eucalipto reduz a erosão por ele causada.

Ar


Para o crescimento das florestas, utilizam, além da água e dos nutrientes, energia solar e dióxido de carbono (para a fotossíntese) e utiliza oxigênio (devolvendo água e gás carbônico) na respiração.

Biodiversidade


Em relação a biodiversidade, Davidson (1985) afirma que, “uma monocultura jamais será capaz de oferecer a mesma diversidade de produtos e benefícios oriundos das florestas nativas”. Os sub-bosques são de suma importância quando se trata da biodiversidade do ambiente loca. Os sub-bosques são vegetações subarbustivas ou rasteiras que se encontram no interior de florestas, principalmente atlântica (SANTOS, 1999). Em relação a mastofauna, avifauna, herpetofauna e entomofauna, esse ambiente de sub-bosque são fundamentais para a manutenção dessas faunas vigentes.


Flora


De acordo com Davidson (1985), “a substituição da cobertura vegetal original, geralmente com várias espécies de plantas, por uma cultura única, seja nativa ou exótica, é, na maioria das vezes, uma prática danosa à biodiversidade.”

flores
As flores do eucalipto. Pixabay/Domínio Público.

Em regiões onde há baixa umidade e uma escassez de nutrientes, algumas espécies de eucalipto podem gerar efeitos negativos sobre a vegetação local e até mesmo sobre plantas mais jovens da mesma espécie, oriundos da competição por nutrientes e água (DAVIDSON, 1985).

Mamíferos


Existem poucos estudos relacionados a mastofauna, em grandes monoculturas de eucalipto. Os mamíferos desempenham grande papel dentro das grandes florestas, como a interação animal planta, relações que envolvem a polinização, dispersão de sementes e herbivoria/predação.


Florestas plantadas onde foi desmatado antes era uma floresta nativa, com agora talhões homogêneos, representam uma matriz pobre, na qual animais gastam mais energia para encontrar alimento, do que adquirem para sua sobrevivência e de seus filhotes. De acordo com Silveira (2005), os sub-bosques das florestas de eucalipto, são muito importantes, pois atuam de forma preponderante dentro do local e distribuição da fauna nessas florestas.

De acordo com o estudo desenvolvido de Silva (2002), ela objetivou verificar a riqueza, a composição específica e a diversidade das espécies de mastofauna existentes numa área plantada por Eucalyptus saligna em divisa com fragmentos de floresta atlântica. Na área de estudo, ela observou 47 espécies de mamíferos, entre elas espécies ameaçadas de extinção como o Puma concolor e o Myrmecophaga trydactyla. A diversidade dessas espécies encontradas foi semelhante nos fragmentos de floresta nativa e menor nos cultivos de E. saligna. Ela concluiu dizendo que os plantios de E. saligna, se devidamente manejados, podem ser localmente importantes na conservação da mastofauna de não-voadores, pois esse ambiente é utilizado como habitat por muitas espécies.

Aves


As aves também desempenham papéis fundamentais na manutenção dos ecossistemas florestais, entre elas, tais como os mamíferos e insetos, a polinização, dispersão de sementes, predação de invertebrados e servem também de alimento para outras aves e outros animais.

De acordo com Almeida (1979), “uma forma para aumentar a diversidade de pássaros em monoculturas de eucalipto seria a plantação intercalada dos eucaliptos com árvores frutíferas, que sirvam de alimento para uma gama inferior de espécies”.


As florestas de eucalipto podem servir, por exemplo, como refúgio, casa ou ninho de diversas espécies de pássaros, o que não acontece, por exemplo, com cultivos com plantas de menor porte como cafezais, canaviais e outras espécies agrícolas utilizadas em monoculturas (VITAL, 2007).

Répteis


Os répteis também desempenham papéis fundamentais, tais como o controle das populações de insetos, fonte de alimento para a cadeia trófica e a sua importância médica, em relação aos venenos.

Um estudo realizado por Alves (2014), “mostra que apesar dos ecossistemas campestres serem considerados altamente susceptíveis aos impactos da silvicultura, ainda são praticamente desconhecidos os efeitos dessa atividade sobre a herpetofauna dos campos.”


Mas é esperado que os anfíbios e répteis sejam negativamente afetados pela plantação de eucaliptos, já que, a maioria dos répteis só conseguem sobreviver em um ou em poucos ambientes distintos, e assim respondem à degradação ambiental e ao desequilíbrio. E os anfíbios possuem pele altamente permeável e ovos desprotegidos, o que limita sua ocorrência em hábitats excessivamente ácidos ou alcalinos.

Insetos


Os insetos estão entre os mais populosos animais do planeta, e são de suma importância para a manutenção das florestas e solos, e mais ainda no equilíbrio ecológico dos sistemas, e também possuem importância médica em relação a doenças, tais como a doença de chagas, febre amarela, etc.


Para se ter uma ideia em relação a entomofauna, algumas espécies de eucaliptos são vulneráveis ao surgimento rápido de pragas. Um grande número de lepidópteros e coleópteros nativos, assim como de formigas cortadeiras, têm-se tornado pragas em eucaliptais plantados no Brasil. Somente o fato da mudança de um ambiente, uma floresta para uma monocultura pode causar sérios desequilíbrios dentro da entomofauna, sendo ela a base para a manutenção das florestas.

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Folhas do eucalipto. Pixabay/Domínio Público.

Segundo uma ampla revisão feita por Majer & Recher (1999), relacionadas aos aspectos ambientais das plantações de eucalipto no Brasil. Visando a entomofauna eles concluíram que a plantação causa impactos significativos sobre a biodiversidade, riqueza e distribuição das espécies, proporcionando desequilíbrio e tornando a floresta susceptível a diversas pragas.

O fato de que a serapilheira produzida sob a plantação de eucaliptos difere substancialmente daquelas observadas em florestas nativas, tanto em termos físicos, quanto químicos, criando uma série de problemas para a fauna de decompositores. Se a diversidade de micro artrópodes é reduzida, o ciclo de nutrientes pode ser comprometido nos plantios de eucaliptos (MAJER & RECHER, 1999).

As copas de florestas nativas suportam grande diversidade e biomassa de artrópodes, da qual servem de alimento para muitos pássaros, répteis e mamíferos. Segundo Majer & Recher (1999), há evidências de que a biomassa e a diversidade dos invertebrados são reduzidas drasticamente em copas das plantações de eucaliptos.

HERÓI OU VILÃO?


Nota-se que o eucalipto, mesmo sendo uma espécie exótica no Brasil, demonstra grande vantagens ambientais. Contudo o eucalipto mostra ser uma espécie com vantagens e que apresenta não só impactos negativos mas impactos positivos com maior quantidade, porém isso fica aliado ao seu manejo correto e estudos prévios do seu plantio.

Referências

ALMEIDA, A. F. Influência do tipo de vegetação nas populações de aves em uma floresta implantada de Pinus spp, na região de Agudos-SP. Ipef, n. 18, jun. 1979.

ALVES, Suélen da Silva. Cultivo de Eucalyptus reduz a diversidade da herpetofauna em área de campo no sul do Brasil. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Naturais e Exatas, Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Animal. Santa Maria, Brasil, 2014.

DAVIDSON, J. Ecological aspects of eucalyptus plantation. Proceedings Regional Expert Consultation on Eucalyptus, v. I, 4-8, oct. 1993.

HASSE, G. Eucalipto: histórias de um imigrante vegetal. Porto Alegre: JA Editores, 2006.

MAJER, J.D; RECHER, H.F. Are eucalypts Brazil’s friend or foe? Na entomological viewpoint. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v.28, n.2, 185-200, 1999.

PALMBERG, C. Annotated bibliography on environmental, social and economic impacts of eucalypts. Compilation from English, French and Spanish publications between 1995-1999, set. 2002.

SANTOS, A. S. Sub-bosque: Importância e proteção jurídica. Programa Ambiental: “A última arca de Noé”, 1999-2007. Disponível em: <http://
www.aultimaarcadenoe.com>.

SILVA, C. R. Riqueza e diversidade de mamíferos não-voadores em um mosaico formado por plantios de Eucalyptus saligna e remanescentes de floresta atlântica no município de Pilar do Sul. São Paulo, 2002.

UICN – UNIÓN MUNDIAL PARA LA NATURALEZA. Centro de Derecho Ambiental. Guia para elaboración de marcos jurídicos e institucionales relativos a lãs espécies exóticas invasoras Gland: UICN; 162 p. 2000. (UICN. Série de Política y Derecho Ambiental, 40).

VIANA, Maurício Boratto. O Eucalipto e os seus efeitos ambientais do seu plantio em escala. Câmara dos Deputados Praça 3 Poderes Consultoria Legislativa Anexo III - Térreo Brasília – DF. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados Centro de Documentação e Informação Coordenação de Biblioteca <http://bd.camara.gov.br> Abril, 2004.

VITAL, Marcos H.F. Impacto Ambiental de Florestas de Eucalipto. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v. 14, N. 28, P. 235-276, dez. 2007.

Para finalizar vejam um vídeo do canal Painel Florestal, sobre Como Plantar Eucalipto - plante certo:




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2 comentários:

  1. Tô gostando de seguir esta página e aprendendo têm sobre cajueiros e acai?

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    1. Olá Sebastião Carvalho,

      Que bom que esta aprendendo e gostando de nosso conteúdo. No momento ainda não temos postagens relacionadas ao açaí nem cajueiros. Mas pode ficar tranquilo e ligado no site que faremos uma sobre eles futuramente.

      Um grande abraço,

      Equipe BioOrbis.

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