Cortadeiras vs. Forídeos: um duelo de pequenos

As formigas cortadeiras têm um grande inimigo natural, as moscas.

 http://www.bioorbis.org/2018/06/formigas-forideos-luta-insetos.html
A luta está preste a começar, quem vencerá está batalha? Fonte da imagem: AlexanderWild.

VAMOS DESCOBRIR...

Aos olhos humanos elas são minúsculas, de ar inofensivo. Mas enga-se quem se deixa levar pelas aparências frágil das formigas cortadeiras: seus poderes de destruição tornam-nas uma das grandes pragas para plantações, principalmente no Brasil, onde há a maior ocorrência de espécies. Um único formigueiro chega a ter 10 milhões de indivíduos e consome cerca de uma tonelada em folhas por ano, o que representa 86 árvores de eucalipto, por exemplo. Curiosamente, porém, esse “apetite” todo não é pelas folhas em si. O material coletado é levado para dentro do formigueiro e serve de substrato para o cultivo de um fungo, esse sim, do qual as formigas se alimentam.
Popularmente conhecidas como saúvas, cabeçudas ou quenquéns, as formigas cortadeiras se dividem em cinco gêneros, sendo os mais comuns o Atta e o Acromyrmex, ambos encontrados no Brasil. Por concentrar um maior número de estudos e também por construir ninhos mais visíveis, ao longo dos anos se desenvolveram métodos mais eficientes de combate às espécies do gênero Atta. A destruição de seus habitats naturais é outro fator, que inclusive pôs em risco de extinção a espécie Atta robusta (Figura 6).

Mosca atacando a formiga cortadeira
Figura 2. Mosca atacando a formiga cortadeira. Fonte da imagem: Myrmecos.

Na mesma medida em que isso ocorre, entretanto, a interferência humana no meio ambiente também tem levado ao aumento em larga escala de algumas espécies de cortadeiras. Terrenos desnudos em áreas desmatadas favorecem o surgimento de colônias onde elas não ocorreriam de forma natural ou apareceriam em menor intensidade. Posteriormente, as próprias plantações que ocupam essas áreas desmatadas – como eucalipto, cana-de-açúcar e até mesmo pasto para criações – tornam-se alvos das formigas.

moscas incansáveis não deixam as pobres cortadeiras em paz
Figura 3. As moscas incansáveis não deixam as pobres cortadeiras em paz. Fonte da imagem: SientificAmerican.

A solução encontrada por agricultores, então, é recorrer a iscas formicidas químicas, hoje o principal meio utilizado no controle das cortadeiras. Entretanto, a alternativa está longe de ser a ideal, uma vez que esses componentes químicos causam uma séries de prejuízos ao meio ambiente. Uma solução barata e ecologicamente correta seria atuar com inimigos naturais das formigas, como é o caso dos forídeos.

MOSCAS PARASITAS


Em 1922, o frei franciscano Tomás Borgmeier (que nasceu na Alemanha mas radicou-se no Brasil, Figura 4) realizou o primeiro registro de parasitismo de formigas cortadeiras por moscas da família Phoridae. Ao longo de sua carreira, Borgmeier descreveu cerca de 20 espécies de forídeos parasitoides associados a espécies dos gêneros Atta e Acromyrmex. Entretanto, apesar da descoberta da interação entre os dois insetos ter mais de 90 anos, a maioria das informações disponíveis hoje são recentes, obtidas nas duas últimas décadas.

Tomás Borgmeier
Figura 4. Tomás Borgmeier. Fonte da imagem: InstitutoTeológicoFransiscano.

Atualmente são conhecidas 66 espécies de 11 gêneros de Phoridae que parasitam as formigas cortadeiras Atta spp. e Acromyrmex spp. (Figura 5), sendo a maioria das espécies desses parasitoides pertencente aos gêneros Apocephalus, Myrmosicarius e Eibesfeldtphora. Das 19 espécies de Atta (Figura 7), nove são atacadas por forídeos. Já entre as Acromyrmex são 19 das 62 espécies conhecidas.

Acromyrmex
Figura 5. Acromyrmex. Fonte da imagem: AlexWild.

“As moscas colocam seus ovos na cabeça ou abdômen das formigas, dependendo da espécie, e suas larvas se alimentam do próprio corpo das hospedeiras, matando-as”, explica o biólogo Marcos Antonio Lima Bragança, que dedica-se ao estudo das características biológicas, comportamentais e ecológicas dos forídeos desde 1996.
Marcos, que possui pós-doutorado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e trabalha como professor no campus de Porto Nacional da Universidade Federal do Tocantins (UFT), é responsável por registrar diversas formas de ataque das moscas às formigas e listar características da biologia desse inseto, como a forma de desenvolvimento larval, por exemplo.

Atta robusta
Figura 6. Atta robusta. Fonte da imagem: flickr.

“Buscamos identificar características como formas de reprodução, desenvolvimento da larva na formiga, períodos de incidência, interferências do ambiente, taxas de parasitismo etc. Nosso objetivo final é descobrir uma forma de aumentar a densidade das moscas no campo e promover o controle natural das cortadeiras”, diz Marcos.

Atta
Figura 7. Atta. Fonte da imagem: Inhabitat.

Para isso, o biólogo vislumbra duas alternativas: a produção de moscas em laboratório ou, o que em sua opinião seria ainda melhor, possibilitar o aumento das populações de forídeos na natureza. A primeira possibilidade ainda esbarra na ausência de metodologia para promoção do acasalamento em cativeiro. Já a segunda parece ainda mais distante, pois implicaria em métodos de preservação ambiental de áreas em que as moscas pudessem encontrar um ambiente equilibrado para se desenvolverem.

UMA MOSCA INCOMODA MUITA GENTE


Em suas pesquisas, Marcos Bragança identificou (e corroborou análises de outros pesquisadores) que a taxa de parasitismo das cortadeiras por forídeos (Figura 8) é relativamente baixa, situando-se entre 1% e 5% da população de um formigueiro. 

Phoridae
Figura 8. Phoridae. Fonte da imagem: Phorid.

Após a mosca depositar o ovo, a formiga morre em um prazo que varia de quatro a 12 dias, quando se dá a fase final do desenvolvimento larval do parasitoide. Assim, porém, a cortadeira continua agindo normalmente, sem sofrer nenhum efeito em seu comportamento. “Ao contrário da maioria dos agentes de controle biológico, o efeito principal dos forídeos parasitoides de formigas não se dá pela mortalidade direta dos hospedeiros”, afirma Bragança.

Apocephalus
Figura 9. Apocephalus. Fonte da imagem: BugGuide.

Na verdade a simples presença da mosca nas trilhas já gera um impacto negativo na dinâmica da colônia. O sobrevoo e as tentativas de ataques dos forídeos são suficientes para afetar o comportamento de forrageamento das formigas, uma vez que ocasionam a redução do número e tamanho das operárias que transitam nas trilhas. Além disso, o esforço empregado pelas operárias para se defenderem dos ataques reduz o tempo que elas gastariam na coleta e transporte de material vegetal para o ninho, gera a diminuição das cargas que cada uma leva e o aumento do número de fragmentos vegetais abandonados, resultando em menos comida no formigueiro.

MÉTODOS DE ATAQUE


Como se comportam os forídeos dos três gêneros que mais parasitam formigas cortadeiras:

Myrmosicarius (Figura 10)

Aproximam-se por trás da formiga e atacam a cabeça do hospedeiro sempre pelo lado direito, pois o ovipositor da mosca é assimétrico e fica voltado para o lado esquerdo.

Myrmosicarius
Figura 10. Myrmosicarius. Fonte da imagem: Phorid.

Eibesfeldtphora

A estratégia de ataque típica é perseguir e investir contra as operárias que transitam nas trilhas, intercalando os ataques com pousos acima ou dos lados da trilha.

Apocephalus (Figura 9)

Ao contrário de outros forídeos que voam em busca do hospedeiro, este se aproxima das formigas caminhando pela superfície das folhas. A oviposição parece ser realizada pela inserção do ovipositor nas partes bucais da formiga.

Referência 
CRBio-04.

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