De norte a sul: a migração das baleias

Esses animais gigantes e incríveis tem uma grande jornada atravessando os mares para se alimentarem e reproduzirem nas águas extremas do planeta.

 https://www.bioorbis.org/2019/01/migracao-baleias.html
Uma linda baleia jubarte. Pixabay/Domínio Público.

VAMOS DESCOBRIR...

MIGRAR PARA SOBREVIVER


O ciclo anual de eventos na vida das grandes baleias-de-barbatana é particularmente instrutivo para demonstrar como a migração está relacionada com o uso de energia e correlacionada com a reprodução dos maiores de todos os animais. A maior parte das baleias passa o verão em águas polares ou subpolares tanto do Hemisfério Norte como do Hemisfério Sul, onde se alimentam do "krill" ou de outros crustáceos, abundantes nessas águas frias e produtivas. Durante três ou quatro meses do ano uma baleia consome uma vasta quantidade de alimento que é convertida em energia estocada sob a forma de gordura subcutânea e outros tipos de gordura. No decorrer desse período de tempo as baleias grávidas nutrem suas crias ainda não nascidas, que podem crescer a até um terço do comprimento de suas mães antes do parto.


Perto do fim do verão as baleias migram para águas tropicais ou subtropicais onde têm seus filhos (Figura 2). As jovens baleias crescem rapidamente graças ao rico leite proporcionado por suas mães, e na primavera os filhotes já estão suficientemente desenvolvidos para viajar com suas mães de volta para as águas árticas ou antárticas. Desmamam quando chegam nas áreas em que passam o verão. 

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Figura 2. Uma mamãe baleia com seu pequeno filhote. Pixabay/Domínio Público.

Do ponto de vista bioenergético e trófico a característica notável dessa migração anual é que toda a energia requerida como combustível para a mesma, provém da forma voraz de alimentar-se e da consequente engorda durante os três ou quatro meses passados nos mares polares. Quase não se alimentam durante a migração ou durante o período do inverno quando estão cuidando e amamentando os filhotes.  A energia para todas essas atividades vem dos estoques de gordura acumulada na camada de revestimento térmico e em outras partes do corpo.


A baleia-cinzenta (Eschrichtius robustus) do Oceano Pacífico realiza uma das migrações mais longas e melhor conhecidas (Figura 3). N o verão alimenta-se nas águas do Mar de Bering e do Mar de Chukchi ao norte do Estreito de Bering no Oceano Ártico. Uma pequena parte da população desce a costa da Ásia em direção às águas da Coréia no final do verão ártico, mas a maioria das baleias cinzentas segue a Costa do Pacífico da América do Norte, deslocam-se para o sul da Baja Califórnia e partes adjacentes do oeste do México. 

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Figura 3. Rota migratória da baleia-cinzenta (Eschrichtius robustus). Pixabay/Domínio Público.

Chegam em dezembro ou janeiro, têm seus filhotes em águas rasas e claras, e partem de novo rumo ao norte em março. Algumas baleias cinzentas fazem uma viagem de ida e volta anual de pelo menos 9.000 quilômetros.



ENERGIA PARA A MIGRAÇÃO


A quantidade de energia despendida por uma baleia neste ciclo anual é fenomenal. A taxa de metabolismo basal de uma baleia cinzenta com uma massa corporal não incluída a gordura de 50 toneladas é de aproximadamente 979.000 kilojoules por dia. Se a taxa metabólica de uma baleia livre no mar, incluindo-se a locomoção necessária para alimentar-se e efetuar a migração é cerca de três vezes a taxa basal (um nível típico de uso de energia pelos mamíferos), o dispêndio médio diário da baleia fica em tomo de 2.937.000 kilojoules.


A gordura corporal contém 38.500 kJ/kg, de modo que o gasto diário de energia de uma baleia equivale a metabolizar mais de 76 quilogramas de gordura (da camada de isolamento térmico ou outras) por dia. Supondo-se um conteúdo energético de 20.000 kJ por "krill", e 50 por cento de eficiência na conversão da quantidade bruta de alimentos ingeridos em energia biologicamente utilizável, a energia requerida para existir equivale a uma ingestão diária de 294 quilogramas de alimento.

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Figura 4. Uma baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae). Pixabay/Domínio Público.

Além disso, para atender suas necessidades energéticas diárias, uma baleia quando em sua zona de alimentação precisa acumular estoque de revestimento térmico gorduroso. Para viver 245 dias sem comer a baleia precisa metabolizar um mínimo de 18.375 quilogramas de gordura.

Para acumular essa quantidade de gordura durante os 120 dias de alimentação ativa nas águas do Ártico, a uma taxa de eficiência de conversão de 50 por cento, é necessário o consumo de 70.438 quilogramas de "krill", ou 586 quilogramas por dia. A ingestão total diária de alimento na zona de alimentação necessária para atender a necessidade metabólica diária de uma baleia mais a estocagem de energia para o período migratório não pode ser menor que 294 + 586 = 880 quilogramas de "krill" por dia.

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Figura 5. A gigantesca baleia-azul (Balaenoptera musculus). Pixabay/Domínio Público.

Essa é uma estimativa mínima para as fêmeas, pois os cálculos não incluem os custos energéticos para o desenvolvimento do feto nem para a produção de leite. Tampouco incluem o custo de transportar 20 toneladas de gordura pelo mar afora. Mas uma baleia grande pode realizar todo esse trabalho e até mais sem consumir toda sua cobertura isolante térmica gordurosa, porque cerca da metade da massa corpórea total de uma baleia de grandes dimensões consiste nessa cobertura isolante e outros depósitos de gordura existentes no corpo.

Por que uma baleia cinzenta gasta toda essa energia para migrar? O adulto é muito grande e muito bem isolado termicamente para nunca não ser perturbado pelas águas geladas do Ártico, que não variam mais de 0°C, de inverno a verão. Parece estranho uma baleia adulta abandonar uma fonte abundante de alimento e sair numa viagem longa, difícil e em jejum quase total, para ir para águas quentes que lhe podem causar superaquecimento desgastante.

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Figura 6. Quando o inverno chega ao sul elas retornam par ao norte. Pixabay/Domínio Público.

Provavelmente a vantagem é em favor do filhote, que, embora relativamente grande, não tem ainda uma cobertura isolante térmica suficiente. Se a baleia bebê nascesse nas águas geladas do norte, provavelmente teria de usar uma porção grande da ingestão de energia (leite produzido a partir da gordura estocada de sua mãe) para gerar calor metabólico no sentido de regular sua temperatura corporal.

Essa energia poderia de outra forma ser usada para acelerar seu crescimento. Parece ser mais eficiente e talvez energeticamente mais eficaz para a baleia mãe migrar milhares de quilômetros rumo a águas quentes, para dar à luz e nutrir seu filhote em um ambiente onde a baleia-bebê pode investir a maior parte da energia que ingere na aceleração de seu crescimento.



Referência
POUGH, F. Harvery; JANIS, Christine M; HEISER, John B. A vida dos vertebrados. Atheneu Editora São Paulo, 2006.

Para finalizar veja um vídeo do canal Inteligentista, sobre A Poderosa Baleia Jubarte:


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