As cigarras que produzem espuma no chão da floresta

Em uma de nossas pesquisas, encontramos uma estranha espuma no chão de uma floresta urbana, e ficamos na dúvida se era de um anfíbio ou um inseto.

https://www.bioorbis.org/2020/02/cigarra-espuma-insetos-floresta.html
Uma espuma no chão da floresta, seria de um anfíbio ou um inseto? Foto: Cleverson Felix.

VAMOS DESCOBRIR...

Espuma no chão da floresta um anfíbio ou um inseto?


Em uma de nossas caminhadas pela área verde urbana do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, sempre víamos um estranha espuma no chão da floresta (veja  a foto no início da postagem), principalmente em épocas de chuva. E sempre veio a pergunta em mente, será que essa estranha espuma é de um anfíbio ou de um inseto?

 https://www.youtube.com/channel/UCdjF1j_jYXGznBq955YWDoQ?sub_confirmation=1

Os anfíbios produzem uma espécie de espuma também que no qual envolvem seus ovos na água, como uma espécie de proteção. Mas de início descartamos a hipótese de ser um anfíbio, pois como dito eles depositam seus ovos na água, e onde achamos essa espuma foi no interior das trilhas e longe de fontes de água, como por exemplo a única lagoa que tem na mata.

Com isso fomos ao procurar e descobrir para saber qual espécie de inseto seria. E chegamos a algumas conclusões.

Leia também:



Descoberta a espécie que produz a “espuma” no chão da floresta!

Descobrimos que na verdade pode ser não só uma espécie, e sim várias, de insetos conhecidos como cigarrinhas. A primeira que chegamos, é a espécie do gênero Philaenus sp., que é conhecida como cigarrinha espumosa. Vendo mais fotos que tiramos e filmagens, chegamos a mais duas espécies, a cigarrinha-das-pastagens (Deois flavopicta), que foi indicada por uma amiga nossa Uilmara Machado de Melo, e por último a cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata). Vamos então descrever brevemente sobre cada uma delas:

Cigarrinha-da-espuma (Philaenus spumarius)


Figura 2. Cigarrinha-da-espuma (Philaenus spumarius). Fonte da imagem: Wikipedia/Hectonichus - Own work.

A cigarrinha-da-espuma é uma espécie de inseto pertencente à família de cigarrinhas Aphrophoridae. É uma espécie muito 'euritópica', o que significa que esses sapos podem tolerar uma ampla gama de fatores ambientais e, portanto, existem em muitos habitats diferentes (parques, prados, jardins, etc.). Eles vivem em quase todos os habitats de terra aberta e em florestas abertas. Eles estão ausentes apenas em habitats muito úmidos e muito secos.

As fêmeas depositam os ovos individualmente ou em grupos nas plantas alimentares das larvas. Uma única fêmea pode produzir de 350 a 400 ovos. Em períodos climáticos desfavoráveis, esses insetos podem sobreviver na forma de ovos.

Esses insetos são polifágicos, a especificidade da planta hospedeira é baixa, para que possam se alimentar de uma variedade de plantas, principalmente gramíneas (espécies de Poaceae), plantas de junco (espécies de Juncaceae), ervas e, às vezes, árvores. Eles foram identificados em mais de 170 plantas hospedeiras.

Leia também:

Cigarrinha-das-pastagens (Deois flavopicta)


Figura 3. Cigarrinha-das-pastagens (Deois flavopicta). Fonte da imagem: agrolink.com.br

Esses insetos apresentam coloração preta com duas faixas transversais amarelas nas asas. O abdômen e as pernas são vermelhos. Esses insetos são da família Cercopidae que pertence à ordem Hemiptera. Ocorrem com maior frequência nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. As fêmeas depositam seus ovos no solo ou em restos de vegetação.

Essas cigarrinhas requerem calor e umidade para se desenvolver e proliferar. Portanto, sua ocorrência se dá durante o período chuvoso, podendo ocorrer de três a cinco gerações anuais, dependendo das condições climáticas.

Leia também:



Cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata)


Figura 4. Cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata). Foto: Cleverson Felix

Durante o verão é possível observar no solo de canaviais, próximo à raiz da cana-de-açúcar, a famosa espuma que envolve o corpo de formas imaturas (ninfas) de um inseto conhecido popularmente como cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata). O inseto representa uma importante praga da cana e tem esse nome porque as ninfas se desenvolvem nas raízes da planta.

A pergunta que não quer se calar: Para que serve a espuma dessas cigarrinhas?


O interessante desses insetos até onde descobrirmos é que essas estranha espuma serve como uma espécie de proteção para as larvas enquanto elas se desenvolvem para se tornarem ninfas e depois adultas. Veja na foto abaixo uma ninfa quando tiramos ela dessa espuma:


Figura 5. Espuma de uma cigarrinha, e a ninfa você pode ver dentro do circulo vermelho. Foto: Cleverson Felix.

Então basicamente a função da espuma é proteção. Uma estratégia bastante inovadora e eficiente, pois qualquer outro inseto predador maior que tentar atacar essa espuma acabara ficando preso e não conseguira sair.


Conclusões sobre a espuma das cigarrinhas


Bom, sabemos que tem mais espécies dessas cigarrinhas que produzem essa espuma e que são pragas em lavouras. Mas para termos certeza de qual espécie é a que tiramos fotos e filmamos na floresta precisamos coletar para saber qual espécie é. Mas para isso precisamos de uma licença de coleta para a área do floresta do Museu e isso requer tempo e documentação. Futuramente se tivermos isso em mãos e descobrirmos qual espécie é, postaremos mais um vídeo e uma postagem.

Leia também:


Referências
BERNARDO, Eduardo Roberto de Almeida; ROCHA, Vander de Freitas; PUGA, Osni; SILVA, Ricardo Adaime de. Espécies de cigarrinhas-das-pastagens (Hemiptera: Cercopidae) no meio-norte do Mato Grosso. Ciência Rural, Santa Maria, v.33, n.2, p.369-371, 2003.
CRUZ, Ivan; FIGUEIREDO, Maria de Lurdes Corrêa; NETO, Miguel Marques Gontijo. Danos da Cigarrinha-das-Pastagens, Deois flavopicta Stal (Homoptera: Cercopidae) em Milho Consorciado com Braquiárias. Embrapa, Sete Lagoas, MG Setembro, 2010.
M.F.A. Pereira, R.A.L. Benedetti, J.E.M. Almeida. Eficiência de metarhizium anisopliae (metsch.) sorokin no controle de Deois flavopicta (stal., 1854), em pastagem de capim-braquiária (Brachiaria decumbens). Arq. Inst. Biol., São Paulo, v.75, n.4, p.465-469, out./dez., 2008
Sites: agencia.fapesp.br

Nenhum comentário:

Imagens de tema por Veronica Olson. Tecnologia do Blogger.